sexta-feira, 25 de abril de 2025

25 DE ABRIL

“Esta é a madrugada que eu esperava,
O dia inicial inteiro e limpo,
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.”
            
Sophia de M. Breyner Andresen, 1974

terça-feira, 22 de abril de 2025

V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE CAMÕES

Os medos do Gigante Adamastor…

(…) Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,

Que pareceu sair do mar profundo.  

Arrepiam-se as carnes e o cabelo,

A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

 

E disse: – «Ó gente ousada, mais que quantas

No mundo cometeram grandes cousas,

Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,

E por trabalhos vãos nunca repousas,

Pois os vedados términos quebrantas

E navegar meus longos mares ousas,

Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,

Nunca arados d'estranho ou próprio lenho:

 

(…) Ouve os danos de mi que apercebidos

Estão a teu sobejo atrevimento,

Por todo o largo mar e pola terra

Que inda hás de sojugar com dura guerra.

 

(…) Aqui espero tomar, se não me engano,

De quem me descobriu suma vingança;

E não se acabará só nisto o dano

De vossa pertinace confiança:

Antes, em vossas naus vereis, cada ano,

Se é verdade o que meu juízo alcança,

Naufrágios, perdições de toda sorte,

Que o menor mal de todos seja a morte!»

Luís de Camões, Os Lusíadas, V, 40-42; 44.

Ao longo do canto V d’Os Lusíadas, Vasco da Gama, em Melinde, conta – ou melhor, canta – ao rei local como foi a viagem, desde  Belém, no Restelo, de onde a armada partira, a 8 de julho de 1497.

Entre as ocorrências dignas de registo, sobressai o famoso episódio do Gigante Adamastor, que ocupa as estâncias 37-60.

Segundo o narrador, este monstro aterrador “de disforme e grandíssima estatura”, que dizia que aqueles mares lhe pertenciam e que quem se atrevesse a entrar neles seria destruído, apareceu-lhes junto ao Cabo das Tormentas, depois chamado Cabo da Boa Esperança.

João de Barros e Fernão Lopes de Castanheda dizem que a armada passou o Cabo a 20 de novembro, uma quarta-feira, “ao meio-dia, (…) com vento à popa”, surgindo, então, a aparição do Adamastor, notável criação camoniana que simboliza o terror do mundo desconhecido.

Face à coragem, à valentia, ao “sobejo atrevimento” dos Portugueses, o monstro anuncia-lhes “suma vingança”:

“(…) em vossas naus vereis, cada ano,

Se é verdade o que meu juízo alcança,

Naufrágios, perdições de toda sorte,

Que o menor mal de todos seja a morte!”

É a profecia ameaçadora da nossa futura História Trágico-Marítima…


Adamastor no Miradouro de Santa Catarina, em Lisboa.

Adamastor tem, no entanto, uma vulnerabilidade… Vasco da Gama põe-se de pé e pergunta-lhe: “Quem és tu?”. Chocado, o monstro, “dando um espantoso e grande brado”, conta, então, a sua triste história de amor e traição com uma deusa: Júpiter havia-o transformado num penhasco enorme – o “remoto Cabo” – por amar Thétis!

Interessante é ainda facto de este episódio ter ressonâncias autobiográficas e remeter para os tempos da juventude de Camões, quando esteve desterrado em Ceuta, onde perdeu o olho direito.

Segundo vários autores, através do Adamastor, o Poeta dá-nos “informações de que pertenceu à armada do estreito de Gibraltar”. Quando o monstro confidencia ao Gama “[ter sido] capitão do mar, por onde andava / A armada de Neptuno, que eu buscava” (V, 51), está “a dizer-lhe que servira na armada do estreito de Gibraltar, aquela que permanentemente vigiava ou buscava a dita armada de Neptuno, nome por que era conhecida a esquadra turca”.

“Na realidade – conclui Isabel Rio Novo, a quem estamos a citar –, os biógrafos e comentadores antigos põem Camões a servir nessa armada, estacionando em terra, nos intervalos das missões”.

Seja como for, para a posteridade fica o Adamastor, representante dos medos, mas, também, símbolo da capacidade para ultrapassar obstáculos, enaltecendo o herói.

Já no século XX, Fernando Pessoa, na obra Mensagem, recria a figura sob a forma do Mostrengo. E o Adamastor continua a inspirar artistas como, por exemplo, A Garota Não e Peculiar.

“Medo, que me corres no corpo, / Que me matas os sonhos, / Que me tentas calar”… Vamos ouvir a canção “Adamastor”: letra e música de João Nicolau Quintela, com interpretação de Peculiar.

Fonte: Isabel Rio Novo, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de Camões, Lisboa, Contraponto, 2024, p. 182.

A Organização

quinta-feira, 3 de abril de 2025

CLUBE DE LEITURA

Os Três Desejos e o segredo da Sabedoria

O esforço pessoal, o trabalho e a Sabedoria foram valores que estiveram no centro de uma animada conversa, no âmbito de uma sessão do Clube de Leitura, que reuniu alunos dos 3.º e 4.º anos da EB Diogo Bernardes.

Sob a orientação da Biblioteca Escolar, a sessão teve como ponto de partida Os três desejos, de Júlio Borges, com ilustração de Nuno Alexandre Vieira, com os participantes a partilharem a sua leitura do livro e a sublinharem a importância do bom senso, do trabalho persistente, da sabedoria para conseguir fazer escolhas acertadas.

A sorte não cai do céu, é preciso trabalhar com persistência, em vez de passar o tempo a lamentar-se e a invejar a vida do vizinho, concluíram os participantes, parafraseando as duas quadras finais da estória:

“A sorte está à espreita,

Apenas temos que a procurar,

Porque nada cai do céu oferecido:

Para receber há que trabalhar.

        Foi preciso um chouriço

        Na nossa vida aparecer,

        Para ganharmos juízo,

        E nesta querer vencer.”

A conversa acabou por convocar diversas intertextualidades, com referências à figura bíblica do rei Salomão, que, podendo fazer um pedido a Deus, implorou Sabedoria, e também à estória mitológica de Dédalo e de Ícaro, que, por insensatez, acabaram por morrer afogados, deitando por terra os seus objetivos.

Biblioteca Escolar

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Sarau de Poesia celebra a Palavra 

e evoca Camões

Foi num ambiente de grande envolvimento e compromisso que decorreu o Sarau Poético do Agrupamento de Escolas, uma iniciativa que assinalou o Dia Mundial da Poesia, o Dia Mundial da Árvore e ainda o V centenário do nascimento de Luís de Camões.

A sessão aconteceu no Auditório Municipal, que se revelou pequeno, tal a afluência de alunos, encarregados de educação e familiares em geral, e também de professores e de outros membros da comunidade educativa.

Promovido pela Biblioteca Escolar, em articulação com os Pelouros da Educação e Cultura da Câmara Municipal, o Sarau exaltou a Palavra feita Poesia, bem dita e bem cantada, num exercício de Cidadania que celebrou a Vida e ofereceu aos participantes a oportunidade de partilhar emoções e de aprofundar a reflexão sobre os valores humanistas.

Ao longo de mais de uma hora, uma menina da Educação Pré-escolar e alunos do 1.º Ciclo ao 12.º ano de várias escolas do Agrupamento e ainda familiares e professores fizeram questão de dar voz à Palavra feita Música e Poesia, exaltando a criatividade e a inspiração poética.

Verdadeira Festa da Palavra, o Sarau proporcionou ainda momentos de conjugação perfeita da Poesia e da Música, com alunos da Academia de Música de Ponte da Barca a abrirem (saxofone) e a encerrarem (trompete) o Sarau e a acompanharam alguns momentos de leitura, com fundo instrumental de piano ou violino.

A música esteve também presente na evocação do V centenário do nascimento de Camões (1524-1580), com um grupo de alunos do 6.º ano, sob a orientação dos Professores Daniela Pereira e Paulo Franco (Educação Musical) a interpretaram dois temas alusivos: “Verdes são os campos”, poema musicado por José Afonso, e “Luís Vaz de Camões”, de João Pereira. Outro grupo de alunas dos 11.º e 12.º anos, acompanhado à guitarra pelo professor Osvaldo Martins (EMRC), cantou, por sua vez, “Endechas a Bárbara escrava”.

Nas suas mensagens, tanto o Dr. Carlos Louro, diretor do Agrupamento, como o Dr. Augusto Marinho, presidente da Câmara Municipal, felicitaram os participantes na iniciativa, assim como os seus organizadores, enaltecendo a interação da Escola com a Comunidade e a celebração do poder da Palavra.

Biblioteca Escolar

segunda-feira, 31 de março de 2025

V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE CAMÕES

O poder corruptor do “vil interesse” do dinheiro

Nas naus estar se deixa, vagaroso,

Até ver o que o tempo lhe descobre;

Que não se fia já do cobiçoso

Regedor, corrompido e pouco nobre.

Veja agora o juízo curioso

Quanto no rico, assi como no pobre,

Pode o vil interesse e sede imiga

Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

 

[…] Este rende munidas fortalezas;

Faz tredoros e falsos os amigos;

Este a mais nobres faz fazer vilezas,

E entrega Capitães aos inimigos;

Este corrompe virginais purezas,

Sem temer de honra ou fama alguns perigos;

Este deprava às vezes as ciências,

Os juízos cegando e as consciências.

 

Este interpreta mais que sutilmente

Os textos; este faz e desfaz leis;

Este causa os perjúrios entre a gente

E mil vezes tiranos torna os Reis.

Até os que só a Deus omnipotente

Se dedicam, mil vezes ouvireis

Que corrompe este encantador, e ilude;

Mas não sem cor, contudo, de virtude!

       Luís de Camões, Os Lusíadas, VIII, 96; 98-99. 

Na parte final do canto VIII d’Os Lusíadas, a permanência da armada de Vasco da Gama em Calecute, na Índia, sofre um revés. Instigados por Baco, os locais revoltam-se contra os Portugueses e, neste contexto, aparece o poder do dinheiro.

O Catual, um alto funcionário público nestas paragens do Oriente, deixa o Capitão regressar às naus e partir em liberdade, mas a troco de um conjunto de mercadorias.

A propósito da narração do suborno do Catual e das suas exigências aos navegadores, o Poeta refere um dos males da sociedade sua contemporânea, orientada para o materialismo, fazendo estas reflexões amargas, de profunda crítica ao poder corruptor do “metal luzente e louro”, isto é, do dinheiro.

“O emprestador e a sua mulher”, Marinus van Reymerswaele
– óleo no painel (Prado, Madrid, Spain / Bridgeman Images).
Disponível em https://www.meisterdrucke.pt/, acedido em 28/03/25. 

Explicando esta passagem, Amélia Pinto Pais escreve que “o ouro e o dinheiro têm, de facto, estranhos poderes, como o de levarem à rendição fortalezas bem munidas; levarem à traição os amigos; fazerem cometer vilezas aos mais nobres; entregar Capitães aos inimigos. O ouro chega a corromper as purezas virginais, a depravar as ciências, cegando os juízos e as consciências. Interpreta mais do que subtilmente os textos. Leva as pessoas ao falso testemunho e torna tiranos os reis. E parece que corrompe até aqueles que se dedicam a Deus; e sempre, sempre, sob capa de virtuoso…”.

O Poeta assume, assim, o seu papel humanista de intervenção, de forma pedagógica, denunciando o “vil interesse” e a sede insaciável do dinheiro, fonte de corrupção e de traições, tanto no rico como no pobre…

Em suma, a cobiça, a ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro valor ao homem e muito menos à Pátria que, à época, nas palavras do narrador, estava metida “no gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza” (X, 145).

Os ideais que dão acesso ao heroísmo, à glória, à imortalidade, são outros.

Esta é a exortação do Poeta, no final d’Os Lusíadas, uma epopeia intemporal!

A Organização

Fonte: Amélia Pinto Pais, “Os Lusíadas em Prosa”, Porto, Areal Editores, 1995, p. 63.

domingo, 30 de março de 2025

“Escola Segura” debate com os mais novos

uso responsável da internet

“Cidadania Digital – Internet Segura” foi o tema genérico de uma conversa que a Secção de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário da GNR (“Escola Segura”) manteve com os alunos do 4.º ano do Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca.

Ao longo de cinco encontros, o agente Rui Cunha (EB de Entre Ambos-os-Rios e EB de Crasto) e os agentes José Pinheiro e Nuno Freitas (EB Diogo Bernardes) interagiram com os mais novos, chamando-lhes a atenção para as vantagens, mas também para os perigos de um uso incorreto da internet.


Nesta maravilhosa rede global que é a internet, podemos pesquisar e aprender, conhecer o mundo, comunicar mais facilmente e desfrutar de oportunidades de diversão e de lazer. Mas, ao lado destas vantagens, há múltiplos riscos, que têm um impacto muito negativo na vida das pessoas e da própria sociedade.

Sublinhando a importância do controlo parental e a necessidade de um uso seguro e responsável da internet, os agentes, numa conversa muito dinâmica e interativa com os miúdos, assinalaram um conjunto de perigos e insistiram nos cuidados a ter e nos comportamentos adequados ao meio digital:

“Uma vez na internet, sempre na internet” – mesmo que nos arrependamos e apaguemos uma publicação, essa informação continuará sempre disponível e o seu rasto permanecerá. Por isso, toda a atenção é pouca… e, antes de clicar, é preciso pensar;

Nunca comunicar com desconhecidos. Quando não sabemos quem está do outro lado, devemos ignorar. Nunca, nunca responder/ interagir;

Nunca marcar encontros com desconhecidos;

Nunca ceder a ninguém palavras-passe ou dados pessoais;

Nunca deixar sessões abertas;

Estar alerta para os inúmeros perfis falsos.

Um risco que mereceu especial atenção teve a ver com o ciberbullying, isto é, comportamentos repetidos de agressão, ameaça, intimidação ou outra interação com o objetivo de causar dor, vergonha, medo e/ou desconforto na(s) vítima(s). Em situações desta natureza, importa evitar a interação com o agressor e denunciar o caso junto das autoridades e/ou pedir ajuda aos adultos, tais como pais e professores.

O perigo do vício do jogo

Outra situação analisada em pormenor foi o jogo online e os riscos que este comportamento pode acarretar, nomeadamente em termos de dependência/ viciação.

É fundamental ser capaz de colocar limites, de tal modo que seja sempre eu a controlar o jogo e nunca aconteça ser o jogo a controlar-me a mim, eis a mensagem central deixada pelos agentes.

Até porque – sublinharam –, a dependência do jogo tem um impacto muito negativo na vida das pessoas e na sua saúde, provocando falta de descanso, alimentação inadequada, desconcentração, agressividade e violência.

Quando jogas, joga com segurança, presta atenção ao que partilhas, pensa sempre antes de clicar, sê educado e respeita os outros e as suas diferenças, não respondas a provocações e partilha com os teus pais o que fazes na internet.

Estes encontros aconteceram ainda no âmbito da celebração do Dia da Internet Mais Segura (11 de fevereiro) e resultaram de um trabalho articulado entre a Biblioteca Escolar, o Grupo de Informática (550) e a Secção de Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário da GNR (“Escola Segura”).

A Organização