25 DE ABRIL
“Esta é a madrugada que eu esperava,
O dia inicial inteiro e limpo,
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.”
Sophia de M. Breyner
Andresen, 1974
Ferramenta de divulgação interativa das atividades da BE e de promoção das literacias...
Os medos do Gigante
Adamastor…
(…)
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que
pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se
as carnes e o cabelo,
A
mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!
E
disse: – «Ó gente ousada, mais que quantas
No
mundo cometeram grandes cousas,
Tu,
que por guerras cruas, tais e tantas,
E
por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois
os vedados términos quebrantas
E
navegar meus longos mares ousas,
Que
eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca
arados d'estranho ou próprio lenho:
(…)
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão
a teu sobejo atrevimento,
Por
todo o largo mar e pola terra
Que
inda hás de sojugar com dura guerra.
(…)
Aqui espero tomar, se não me engano,
De
quem me descobriu suma vingança;
E
não se acabará só nisto o dano
De
vossa pertinace confiança:
Antes,
em vossas naus vereis, cada ano,
Se
é verdade o que meu juízo alcança,
Naufrágios,
perdições de toda sorte,
Que
o menor mal de todos seja a morte!»
Luís de Camões, Os Lusíadas, V, 40-42; 44.
Ao
longo do canto V d’Os Lusíadas, Vasco da Gama, em Melinde, conta – ou melhor,
canta – ao rei local como foi a viagem, desde
Belém, no Restelo, de onde a armada partira, a 8 de julho de 1497.
Entre
as ocorrências dignas de registo, sobressai o famoso episódio do Gigante
Adamastor, que ocupa as estâncias 37-60.
Segundo
o narrador, este monstro aterrador “de disforme e grandíssima estatura”, que
dizia que aqueles mares lhe pertenciam e que quem se atrevesse a entrar neles
seria destruído, apareceu-lhes junto ao Cabo das Tormentas, depois chamado Cabo
da Boa Esperança.
João
de Barros e Fernão Lopes de Castanheda dizem que a armada passou o Cabo a 20 de
novembro, uma quarta-feira, “ao meio-dia, (…) com vento à popa”, surgindo,
então, a aparição do Adamastor, notável criação camoniana que simboliza o
terror do mundo desconhecido.
Face
à coragem, à valentia, ao “sobejo atrevimento” dos Portugueses, o monstro
anuncia-lhes “suma vingança”:
“(…)
em vossas naus vereis, cada ano,
Se
é verdade o que meu juízo alcança,
Naufrágios,
perdições de toda sorte,
Que
o menor mal de todos seja a morte!”
É a
profecia ameaçadora da nossa futura História Trágico-Marítima…
![]() |
| Adamastor no Miradouro de Santa Catarina, em Lisboa. |
Adamastor
tem, no entanto, uma vulnerabilidade… Vasco da Gama põe-se de pé e pergunta-lhe:
“Quem és tu?”. Chocado, o monstro, “dando um espantoso e grande brado”, conta,
então, a sua triste história de amor e traição com uma deusa: Júpiter havia-o
transformado num penhasco enorme – o “remoto Cabo” – por amar Thétis!
Interessante
é ainda facto de este episódio ter ressonâncias autobiográficas e remeter para
os tempos da juventude de Camões, quando esteve desterrado em Ceuta, onde
perdeu o olho direito.
Segundo
vários autores, através do Adamastor, o Poeta dá-nos “informações de que
pertenceu à armada do estreito de Gibraltar”. Quando o monstro confidencia ao
Gama “[ter sido] capitão do mar, por onde andava / A armada de Neptuno, que eu
buscava” (V, 51), está “a dizer-lhe que servira na armada do estreito de
Gibraltar, aquela que permanentemente vigiava ou buscava a dita armada de
Neptuno, nome por que era conhecida a esquadra turca”.
“Na
realidade – conclui Isabel Rio Novo, a quem estamos a citar –, os biógrafos e
comentadores antigos põem Camões a servir nessa armada, estacionando em terra,
nos intervalos das missões”.
Seja
como for, para a posteridade fica o Adamastor, representante dos medos, mas, também,
símbolo da capacidade para ultrapassar obstáculos, enaltecendo o herói.
Já
no século XX, Fernando Pessoa, na obra Mensagem, recria a figura sob a forma
do Mostrengo. E o Adamastor continua a inspirar artistas como, por exemplo, A
Garota Não e Peculiar.
“Medo, que me corres no corpo, / Que
me matas os sonhos, / Que me tentas calar”… Vamos ouvir a canção “Adamastor”: letra e música de João Nicolau Quintela, com interpretação de Peculiar.
Fonte:
Isabel Rio Novo, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de
Camões, Lisboa, Contraponto, 2024, p. 182.
A Organização
Os Três Desejos e o segredo da Sabedoria
O esforço pessoal, o trabalho e
a Sabedoria foram valores que estiveram no centro de uma animada conversa, no
âmbito de uma sessão do Clube de Leitura, que reuniu alunos dos 3.º e 4.º anos
da EB Diogo Bernardes.
Sob a orientação da Biblioteca
Escolar, a sessão teve como ponto de partida Os três desejos, de Júlio Borges,
com ilustração de Nuno Alexandre Vieira, com os participantes a partilharem a
sua leitura do livro e a sublinharem a importância do bom senso, do trabalho
persistente, da sabedoria para conseguir fazer escolhas acertadas.
A sorte não cai do céu, é
preciso trabalhar com persistência, em vez de passar o tempo a lamentar-se e a
invejar a vida do vizinho, concluíram os participantes, parafraseando as duas
quadras finais da estória:
“A sorte está à espreita,
Apenas temos que a procurar,
Porque nada cai do céu oferecido:
Para receber há que trabalhar.
Foi preciso um chouriço
Na nossa vida aparecer,
Para ganharmos juízo,
E nesta querer vencer.”
A conversa acabou por convocar
diversas intertextualidades, com referências à figura bíblica do rei Salomão,
que, podendo fazer um pedido a Deus, implorou Sabedoria, e também à estória
mitológica de Dédalo e de Ícaro, que, por insensatez, acabaram por morrer
afogados, deitando por terra os seus objetivos.
Biblioteca Escolar
Sarau de Poesia celebra a Palavra
e evoca Camões
Foi
num ambiente de grande envolvimento e compromisso que decorreu o Sarau Poético
do Agrupamento de Escolas, uma iniciativa que assinalou o Dia Mundial da
Poesia, o Dia Mundial da Árvore e ainda o V centenário do nascimento de Luís de
Camões.
A
sessão aconteceu no Auditório Municipal, que se revelou pequeno, tal a
afluência de alunos, encarregados de educação e familiares em geral, e também
de professores e de outros membros da comunidade educativa.
Promovido
pela Biblioteca Escolar, em articulação com os Pelouros da Educação e Cultura
da Câmara Municipal, o Sarau exaltou a
Palavra feita Poesia, bem dita e bem cantada, num exercício de Cidadania que
celebrou a Vida e ofereceu aos participantes a
oportunidade de partilhar emoções e de aprofundar a reflexão sobre os valores humanistas.
Ao
longo de mais de uma hora, uma menina da Educação Pré-escolar e alunos do 1.º
Ciclo ao 12.º ano de várias escolas do Agrupamento e ainda familiares e
professores fizeram questão de dar voz à Palavra feita Música e Poesia, exaltando
a criatividade e a inspiração poética.
Verdadeira
Festa da Palavra, o Sarau proporcionou ainda momentos de conjugação perfeita da
Poesia e da Música, com alunos da Academia de Música de Ponte da Barca a
abrirem (saxofone) e a encerrarem (trompete) o Sarau e a acompanharam alguns
momentos de leitura, com fundo instrumental de piano ou violino.
A
música esteve também presente na evocação do V centenário do nascimento de
Camões (1524-1580), com um grupo de alunos do 6.º ano, sob a orientação dos
Professores Daniela Pereira e Paulo Franco (Educação Musical) a interpretaram
dois temas alusivos: “Verdes são os campos”, poema musicado por José Afonso, e
“Luís Vaz de Camões”, de João Pereira. Outro grupo de alunas dos 11.º e 12.º
anos, acompanhado à guitarra pelo professor Osvaldo Martins (EMRC), cantou, por
sua vez, “Endechas a Bárbara escrava”.
Nas
suas mensagens, tanto o Dr. Carlos Louro, diretor do Agrupamento, como o Dr. Augusto
Marinho, presidente da Câmara Municipal, felicitaram os participantes na
iniciativa, assim como os seus organizadores, enaltecendo a interação da Escola
com a Comunidade e a celebração do poder da Palavra.
Biblioteca Escolar
O poder corruptor do “vil
interesse” do dinheiro
Nas naus estar se
deixa, vagaroso,
Até ver o que o
tempo lhe descobre;
Que não se fia já
do cobiçoso
Regedor,
corrompido e pouco nobre.
Veja agora o
juízo curioso
Quanto no rico,
assi como no pobre,
Pode o vil
interesse e sede imiga
Do dinheiro, que
a tudo nos obriga.
[…] Este rende
munidas fortalezas;
Faz tredoros e
falsos os amigos;
Este a mais
nobres faz fazer vilezas,
E entrega
Capitães aos inimigos;
Este corrompe
virginais purezas,
Sem temer de
honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às
vezes as ciências,
Os juízos cegando
e as consciências.
Este interpreta
mais que sutilmente
Os textos; este
faz e desfaz leis;
Este causa os
perjúrios entre a gente
E mil vezes
tiranos torna os Reis.
Até os que só a
Deus omnipotente
Se dedicam, mil
vezes ouvireis
Que corrompe este
encantador, e ilude;
Mas não sem cor,
contudo, de virtude!
Luís de Camões, Os Lusíadas, VIII,
96; 98-99.
Na parte final do canto VIII d’Os Lusíadas, a permanência da armada de Vasco da Gama em Calecute,
na Índia, sofre um revés. Instigados por Baco, os locais revoltam-se contra os
Portugueses e, neste contexto, aparece o poder do dinheiro.
O Catual,
um alto funcionário público nestas paragens do Oriente, deixa o Capitão
regressar às naus e partir em liberdade, mas a troco de um conjunto de mercadorias.
A
propósito da narração do suborno do Catual e das suas exigências aos
navegadores, o
Poeta refere
um dos males da sociedade sua contemporânea, orientada para o materialismo, fazendo
estas reflexões amargas, de profunda crítica ao poder corruptor do “metal
luzente e louro”, isto é, do dinheiro.
![]() |
| “O
emprestador e a sua mulher”, Marinus van Reymerswaele – óleo no painel (Prado, Madrid, Spain / Bridgeman Images). Disponível em https://www.meisterdrucke.pt/, acedido em 28/03/25. |
Explicando
esta passagem, Amélia Pinto Pais escreve que “o ouro e o dinheiro têm, de
facto, estranhos poderes, como o de levarem à rendição fortalezas bem munidas;
levarem à traição os amigos; fazerem cometer vilezas aos mais nobres; entregar
Capitães aos inimigos. O ouro chega a corromper as purezas virginais, a
depravar as ciências, cegando os juízos e as consciências. Interpreta mais do que
subtilmente os textos. Leva as pessoas ao falso testemunho e torna tiranos os
reis. E parece que corrompe até aqueles que se dedicam a Deus; e sempre,
sempre, sob capa de virtuoso…”.
O Poeta
assume, assim, o seu papel humanista de intervenção, de forma pedagógica, denunciando
o “vil interesse” e a sede insaciável do dinheiro, fonte de corrupção e de
traições, tanto no rico como no pobre…
Em
suma, a cobiça, a ambição e a tirania são honras vãs que não dão verdadeiro
valor ao homem e muito menos à Pátria que, à época, nas palavras do narrador,
estava metida “no gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil
tristeza” (X, 145).
Os
ideais que dão acesso ao heroísmo, à glória, à imortalidade, são outros.
Esta
é a exortação do Poeta, no final d’Os
Lusíadas, uma epopeia intemporal!
A Organização
Fonte: Amélia Pinto Pais, “Os Lusíadas em Prosa”, Porto, Areal Editores, 1995, p. 63.
“Escola
Segura” debate com os mais novos
uso responsável da internet
“Cidadania
Digital – Internet Segura” foi o tema genérico de uma conversa que a Secção de
Prevenção Criminal e Policiamento Comunitário da GNR (“Escola Segura”) manteve
com os alunos do 4.º ano do Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca.
Ao
longo de cinco encontros, o agente Rui Cunha (EB de Entre Ambos-os-Rios e EB de
Crasto) e os agentes José Pinheiro e Nuno Freitas (EB Diogo Bernardes)
interagiram com os mais novos, chamando-lhes a atenção para as vantagens, mas
também para os perigos de um uso incorreto da internet.
Nesta
maravilhosa rede global que é a internet, podemos pesquisar e aprender,
conhecer o mundo, comunicar mais facilmente e desfrutar de oportunidades de
diversão e de lazer. Mas, ao lado destas vantagens, há múltiplos riscos, que
têm um impacto muito negativo na vida das pessoas e da própria sociedade.
Sublinhando a importância do controlo parental e a necessidade de um uso seguro e responsável da internet, os agentes, numa conversa muito dinâmica e interativa com os miúdos, assinalaram um conjunto de perigos e insistiram nos cuidados a ter e nos comportamentos adequados ao meio digital:
“Uma vez na internet, sempre na
internet” – mesmo que nos arrependamos e apaguemos uma publicação, essa
informação continuará sempre disponível e o seu rasto permanecerá. Por isso,
toda a atenção é pouca… e, antes de clicar, é preciso pensar;
Nunca comunicar com desconhecidos.
Quando não sabemos quem está do outro lado, devemos ignorar. Nunca, nunca
responder/ interagir;
Nunca marcar encontros com
desconhecidos;
Nunca ceder a ninguém palavras-passe ou
dados pessoais;
Nunca deixar sessões abertas;
Estar alerta para os inúmeros perfis
falsos.
Um risco que mereceu especial atenção teve a ver com o ciberbullying, isto é, comportamentos repetidos de agressão, ameaça, intimidação ou outra interação com o objetivo de causar dor, vergonha, medo e/ou desconforto na(s) vítima(s). Em situações desta natureza, importa evitar a interação com o agressor e denunciar o caso junto das autoridades e/ou pedir ajuda aos adultos, tais como pais e professores.
O perigo do vício do jogo
Outra
situação analisada em pormenor foi o jogo online e os riscos que este
comportamento pode acarretar, nomeadamente em termos de dependência/ viciação.
É
fundamental ser capaz de colocar limites, de tal modo que seja sempre eu a
controlar o jogo e nunca aconteça ser o jogo a controlar-me a mim, eis a
mensagem central deixada pelos agentes.
Até
porque – sublinharam –, a dependência do jogo tem um impacto muito negativo na
vida das pessoas e na sua saúde, provocando falta de descanso, alimentação
inadequada, desconcentração, agressividade e violência.
Quando
jogas, joga com segurança, presta atenção ao que partilhas, pensa sempre antes
de clicar, sê educado e respeita os outros e as suas diferenças, não respondas
a provocações e partilha com os teus pais o que fazes na internet.
Estes
encontros aconteceram ainda no âmbito da celebração do Dia da Internet Mais
Segura (11 de fevereiro) e resultaram de um trabalho articulado entre a
Biblioteca Escolar, o Grupo de Informática (550) e a Secção de Prevenção
Criminal e Policiamento Comunitário da GNR (“Escola Segura”).
A Organização